Nesta entrevista, Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador de livros
infantis e juvenis, conta como se tornou leitor e escritor de literatura e de
que maneira a escola interferiu neste processo.
Assistir ao vídeo no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=xKlnp5j2DLQ&noredirect=1
Entrevista com Regina Zilberman
Pesquisadora fala sobre o trabalho com a leitura nas escolas e a importância de o professor ser ele mesmo um leitor
A leitura é um mundo. Talvez seja ela o mundo. Dar à criança a chave que
abre as portas desse universo é permitir que ela seja informada,
autônoma e, principalmente, dona dos rumos de sua própria vida. Afinal,
não é à toa que se fala tanto em uso social da leitura e da escrita. E
para despertar nos pequenos o gosto pela literatura é fundamental que os
professores sejam eles mesmos grandes entusiastas dos livros. É o que
defende Regina Zilberman, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A
pesquisadora será uma das palestrantes do Seminário Prazer em Ler de
Promoção da Leitura - Nos Caminhos da Literatura, que se realizará a
partir de amanhã em São Paulo. O evento é uma iniciativa do Instituto
C&A e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Leia
a seguir uma entrevista exclusiva com Regina sobre a leitura na escola.
E não deixe de acompanhar, aqui no site, nos dias 22, 23 e 24 de
agosto, a cobertura on-line do evento.
O que já pode ser considerado como premissas para o docente no trabalho com a leitura?
Regina Zilberman:
Parece óbvio o que vou dizer, mas a premissa é a de que o professor
seja um leitor. Não apenas um indivíduo letrado, mas alguém que, com
certa freqüência, lê produtos como jornais, revistas, bulas de remédio,
histórias em quadrinho, romances ou poesias. O professor precisa se
reconhecer como leitor e gostar de se entender nessa condição. Depois,
seria interessante que ele transmitisse aos alunos esse gosto,
verificando o que eles apreciam. Esse momento é meio difícil, pois, via
de regra, crianças e jovens tendem a rejeitar a leitura porque ela é
confundida com o livro escolar e a obrigação de aprender. Se o professor
quebrar esse gelo, acredito que conseguirá andar em frente. A terceira
etapa depende de a escola, por meio da biblioteca, da ação do professor e
do interesse dos alunos, disponibilizar livros para todos. Mas as
publicações não podem ser produzidas pelos alunos. Caso contrário,
impede-se o reconhecimento do livro como um produto industrial, com
características específicas e dentro do qual existe a matéria para
leitura. O aluno precisa reconhecer que essa matéria é oriunda de um
terceiro, o autor, com o qual o leitor dialoga.
Não existe
fórmula para o trabalho com leitura em sala de aula, mas há uma série de
pré-condições, como as que já citei e que considero mínimas.
Precisamos, porém, reconhecer como fundamental também a valorização do
trabalho do professor e o oferecimento de condições favoráveis de
ensino, como segurança nas escolas públicas, livros na biblioteca, salas
de aula equipadas, etc.. Essas são igualmente premissas, que não
dependem do professor, mas de políticas públicas que tenham a Educação
como foco principal.
O que já se sabe quando o assunto é leitura na escola?
Regina Zilberman:
Há uma gama variada de pesquisas sobre o assunto, que começam com as
questões de aquisição da escrita, estendem-se à psicolingüística e à
sociolingüística e chegam à teoria da literatura, que desenvolveu uma
ampla área de investigação relacionada aos processos de leitura e de
formação do leitor. A escola, nesse caso, pode ser entendida tanto como o
local onde se dá a aprendizagem da leitura e a preparação para o
consumo de obras impressas, quanto como o espaço do desencantamento e da
perda da magia trazida da infância, já que impede o contato direto com o
mundo da oralidade, onde se fazia a transmissão original de histórias
(contos de fadas, poemas, cantigas de ninar, etc.). A leitura na escola
constitui um amplo campo de investigação porque, nas atuais condições de
aprendizagem e ensino, é o lugar onde o indivíduo pode amadurecer
intelectualmente ou retrair-se, evitando (ou minimizando) seus
intercâmbios com o universo da cultura.
O que ainda precisa ser mais bem investigado nessa área?
Regina Zilberman:
Acho que, no âmbito dos estudos literários, há ainda margem para
estudar o impacto da leitura literária na formação do leitor,
especialmente entre os jovens que freqüentam o Ensino Médio, território
ainda não suficientemente mapeado nas pesquisas vigentes.
O que leva o professor a buscar um evento como este Seminário, que tratará de leitura?
Regina Zilberman:
Eventos sobre leitura são bastante procurados por professores, pois
eles se sentem bastante inseguros em relação à sua prática docente. Um
congresso como o de leitura que se realiza na Universidade Estadual de
Campinas, a cada dois anos, reúne cerca de cinco mil pessoas. Isso
sinaliza igualmente o desejo de aprender por parte daqueles que ensinam.
Além disso, há o interesse em socializar experiências bem sucedidas,
razão porque é preciso estabelecer, em tais eventos, o momento de ouvir e
o momento de falar. Nesses eventos se propicia o diálogo com o público
e, sobretudo, a discussão sobre as alternativas que os professores
encontram no trabalho com seus alunos.
No
evento, o tema de sua apresentação será o Ensino Médio e a formação do
leitor. Que tipo de leitores temos nesse nível de ensino?
Regina Zilberman:
Os estudantes de classe média urbana chegam muito jovens ao nível
médio. Mas lá também chegam alunos que têm apenas a noite para
freqüentar a escola, já que trabalham durante o dia. Assim, há situações
bastante distintas. No primeiro caso, não há grande diferença entre o
aluno do oitavo ano do Ensino Fundamental e o do primeiro ano do Ensino
Médio. Mesmo assim, há um amadurecimento nesse período que obriga o
professor a lidar com uma situação híbrida, tendo de escolher livros que
representem essa passagem (publicações recentes e que abordem temas
associados a problemas do mundo contemporâneo). O professor
provavelmente elegerá obras de maior estofo (ou as constantes de listas
de vestibular) quando o aluno estiver no segundo ano do Ensino Médio. No
segundo caso, a condição é outra: o aluno trabalhador é maduro, está
preocupado com o serviço diário e não tem muitas oportunidades para ler e
estudar. O espaço de leitura é o tempo da sala de aula e, nesse
intervalo, o professor terá de ensaiar suas estratégias de ensino.
Qual a especificidade da leitura de textos informativos?
Regina Zilberman:
Quem lê bem um conto ou um poema, lê bem uma notícia de jornal ou um
manual de história ou de química. Se isso quer dizer que compete ao
professor de língua e de literatura preparar bem o aluno para a leitura
de qualquer tipo de texto, significa também que a aprendizagem da
leitura envolve todo o corpo docente, e que um bom professor de História
ou de Química ensinará os estudantes a ler adequadamente o material
escrito onde está o conteúdo de sua matéria.
Referência:
http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/juventude-leia-mais-423892.shtml
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